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    Como guerra no Irã está secando estoque de armas estratégicas (e caríssimas) dos EUA

    O esforço do Pentágono para rearmar às pressas suas forças no Oriente Médio deixa os EUA menos preparados para enfrentar possíveis adversários como Rússia e China, afirmam autoridades do governo e do Congresso
    AdminBy Admin25/04/2026Nenhum comentário
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    Eric Schmitt e Jonathan Swan – The New York Times

    Desde o início da guerra contra o Irã, no fim de fevereiro, os Estados Unidos já dispararam cerca de 1.100 mísseis de cruzeiro furtivos de longo alcance — projetados para um eventual conflito com a China —, praticamente todo o estoque desse tipo de armamento que restava no país. Os militares também lançaram mais de 1.000 mísseis Tomahawk, algo como dez vezes o volume que costumam comprar por ano.

    O Pentágono usou mais de 1.200 mísseis interceptores Patriot, que saem por mais de US$ 4 milhões cada, além de mais de 1.000 mísseis terrestres Precision Strike e ATACMS. O resultado é um nível de arsenais considerado preocupante, segundo estimativas internas do Departamento de Defesa e de autoridades do Congresso.

    A guerra com o Irã drenou de forma significativa o estoque global de munições das Forças Armadas dos EUA e obrigou o Pentágono a transferir bombas, mísseis e outros equipamentos para o Oriente Médio a partir de comandos na Ásia e na Europa. Esse remanejamento deixou esses comandos regionais menos preparados para lidar com potenciais adversários como Rússia e China e forçou Washington a correr atrás de formas de ampliar a produção para repor o que foi gasto, segundo autoridades do governo Trump e do Congresso.

    O conflito também escancarou a dependência do Pentágono de mísseis e munições extremamente caros, especialmente interceptores de defesa aérea, e reacendeu dúvidas sobre a capacidade da indústria bélica de desenvolver armamentos mais baratos — sobretudo drones de ataque — em um ritmo bem mais acelerado.

    O Departamento de Defesa não revelou quantas munições foram usadas nos 38 dias de guerra até o cessar-fogo, há duas semanas. O Pentágono diz ter atingido mais de 13 mil alvos, mas autoridades afirmam que esse número esconde a quantidade real de bombas e mísseis lançados, já que caças, aviões de ataque e peças de artilharia costumam golpear as mesmas estruturas várias vezes.

    A Casa Branca se recusa a estimar o custo do conflito até aqui, mas dois grupos independentes calculam uma conta pesada: entre US$ 28 bilhões e US$ 35 bilhões — algo próximo de US$ 1 bilhão por dia.

    Só nos dois primeiros dias, de acordo com números apresentados por autoridades de defesa a parlamentares, os militares consumiram US$ 5,6 bilhões em munições.

    Para recompor o arsenal global americano ao nível anterior, os EUA terão de fazer escolhas difíceis sobre onde concentrar sua força militar nesse período. “Com as atuais taxas de produção, reconstruir o que foi gasto pode levar anos”, disse nesta semana o senador Jack Reed, de Rhode Island, principal democrata do Comitê de Serviços Armados.

    Os Estados Unidos têm muitas munições em quantidade adequada, mas alguns armamentos críticos de ataque terrestre e de defesa contra mísseis já eram escassos antes da guerra — e agora estão ainda mais”, afirmou Mark F. Cancian, coronel reformado da Marinha e pesquisador sênior do Center for Strategic and International Studies (CSIS), que publicou recentemente um estudo sobre a situação de munições-chave.

    A porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmou em nota que “toda a premissa desta reportagem é falsa”. E completou: “Os Estados Unidos da América têm as Forças Armadas mais poderosas do mundo, plenamente abastecidas com mais do que armas e munições suficientes, em estoques aqui e ao redor do globo, para defender o território nacional e cumprir qualquer operação militar determinada pelo comandante em chefe.”

    O principal porta-voz do Pentágono, Sean Parnell, se recusou a comentar “necessidades específicas de qualquer teatro de operações ou detalhar nossas capacidades globais de recursos”, alegando questões de segurança.

    Alguns republicanos, como o senador Mitch McConnell, de Kentucky, que preside a subcomissão responsável pelo orçamento do Pentágono, defendem há anos o aumento dos gastos com produção de munições, em diferentes governos. O secretário de Defesa, Pete Hegseth, transformou esse objetivo em uma de suas prioridades.

    O cenário fica ainda mais delicado porque o Departamento de Defesa aguarda o Congresso aprovar recursos extras para poder pagar os fabricantes de armas e repor o estoque americano. Em janeiro, o governo anunciou contratos de sete anos com grandes empresas do setor, como a Lockheed Martin, para ampliar a capacidade de produção de sistemas como interceptores de mísseis.

    Enquanto isso, os militares seguem queimando os estoques que têm em ritmo acelerado para atender às demandas imediatas do Comando Central na guerra contra o Irã. Alguns tipos de munição estão acabando mais rápido do que outros.

    O Pentágono, por exemplo, já comprometeu a maior parte de seus mísseis de cruzeiro furtivos de longo alcance no conflito com o Irã. Esses armamentos, conhecidos como Joint Air-to-Surface Standoff Missile-Extended Range (JASSM-ER), são lançados de caças e bombardeiros, têm alcance superior a 600 milhas (cerca de 965 km) e foram projetados para destruir alvos fortificados fora do alcance das defesas antiaéreas inimigas.

    Desde o começo da guerra, as Forças Armadas gastaram cerca de 1.100 JASSM-ER, que custam em torno de US$ 1,1 milhão por unidade, deixando algo como 1.500 mísseis desse tipo no arsenal, segundo estimativas internas do Pentágono e relatos de um oficial militar e de uma autoridade do Congresso, que falaram sob condição de anonimato por se tratar de avaliações confidenciais.

    Os Tomahawks, que custam cerca de US$ 3,6 milhões cada, são mísseis de cruzeiro de longo alcance amplamente usados pelos EUA desde a Primeira Guerra do Golfo, em 1991. Continuam sendo peça-chave para eventuais conflitos futuros, inclusive em um possível cenário de guerra na Ásia.

    Embora haja munição suficiente para travar esta guerra, o alto consumo de Tomahawks e outros mísseis na Operação Epic Fury cria riscos para os Estados Unidos em outros teatros — especialmente no Pacífico Ocidental”, concluiu um estudo do CSIS, que estima em cerca de 3 mil o número de Tomahawks ainda em estoque.

    Cada míssil interceptor Patriot pode custar quase US$ 4 milhões. Os EUA produziram algo em torno de 600 unidades ao longo de todo o ano de 2025. Mais de 1.200 já foram usadas na guerra, de acordo com estimativas internas do Pentágono e de autoridades do Congresso.

    No total, o custo da guerra até agora está entre US$ 25 bilhões e US$ 35 bilhões, segundo estudo deste mês do American Enterprise Institute, elaborado por Elaine McCusker, ex-alta funcionária do Pentágono no primeiro governo Trump. Cancian, do CSIS, disse em e-mail que ele e sua equipe calculam o custo do conflito em cerca de US$ 28 bilhões.

    Todos os comandos regionais das Forças Armadas sentem o aperto dos estoques em queda.

    Na Europa, a guerra já provocou a redução de sistemas de armas considerados cruciais para defender o flanco leste da Otan de uma eventual agressão russa, segundo documentos do Pentágono analisados pelo The New York Times.

    Um problema apontado como sério é a perda de drones de vigilância e ataque. As demandas do conflito com o Irã também levaram à redução de exercícios e treinamentos, o que, segundo militares, prejudica a capacidade de realizar operações ofensivas na Europa e enfraquece o poder de dissuasão contra possíveis ataques da Rússia.

    Mas o maior impacto se dá nas tropas posicionadas na Ásia.

    Antes da guerra com o Irã, comandantes americanos redirecionaram o grupo de ataque do porta-aviões USS Abraham Lincoln do Mar do Sul da China para o Oriente Médio. Desde então, duas Unidades Expedicionárias de Fuzileiros Navais, cada uma com cerca de 2.200 militares, foram deslocadas do Pacífico para a região. O Pentágono também transferiu sistemas avançados de defesa aérea da Ásia para reforçar a proteção contra drones e foguetes iranianos.

    Entre os equipamentos redirecionados estão mísseis Patriot e interceptores do sistema THAAD na Coreia do Sul — o único aliado asiático que abriga esse sistema avançado de defesa antimísseis, instalado pelos EUA para conter a ameaça crescente de foguetes da Coreia do Norte. Agora, pela primeira vez, esses interceptores estão sendo retirados do país, segundo autoridades americanas.

    A prontidão militar dos EUA no Pacífico já havia sido afetada antes, quando o Pentágono enviou navios de guerra e aeronaves para o Oriente Médio após o início da guerra entre Israel e o Hamas em Gaza, em outubro de 2023, e depois que militantes houthis, no Iêmen, começaram a atacar navios no mar Vermelho em apoio aos palestinos, segundo autoridades.

    A campanha de bombardeios de um mês contra os houthis no ano passado — batizada de Rough Rider pelo Pentágono — foi bem maior do que o governo Trump admitiu à época. De acordo com autoridades americanas, só nas três primeiras semanas a operação consumiu cerca de US$ 200 milhões em munições. Somando custos operacionais e de pessoal, a conta passou com folga de US$ 1 bilhão.

    Navios, aviões e as equipes que operam esses equipamentos vêm sendo mantidos no que os militares chamam de “alto ritmo operacional”. Nessa toada, até a manutenção básica passa a ser um desafio.

    Matéria publicada em InfoMoney

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