Bárbara Castro – IGN
Ainda lembro bem quando minha mãe me levou para assistir a Wall-E no cinema. Deveria ter por volta de 7 anos e, até então, acompanhava desenhos como qualquer criança, mas saí da sessão diferente. Wall-E é um daqueles filmes que me ajudou a conceber a ideia de obra de arte. Eu não chorei igual à minha mãe, na verdade, não entendia nem 90% do que estava vendo, mas eu senti algo especial, e definitivamente não esperava sentir essa sensação de novo 15 anos depois.
Robô Selvagem não fez tanto barulho prévio. Apesar de algumas notícias alavancarem o projeto citando as presenças de Lupita Nyong’o e Pedro Pascal no elenco, o novo filme da DreamWorks parecia ser mais do mesmo, uma aventura qualquer. Tudo o que a mídia sabia era que o filme seria uma adaptação do livro homônimo de Peter Brown.
O longa segue a unidade Roz 7134, da série ROZZUM: robôs feitos para auxiliar em absolutamente tudo que é pedido. Durante sua viagem de entrega, a nave cai em uma ilha deserta e a unidade 7134 é a única que acaba sobrevivendo e “acordando”. Sem achar qualquer humano no local, ela começa a aprender a língua dos animais locais e se depara com um ovo de ganso e logo passa a ser “mãe” de um animal. Dois mundos completamente diferentes.
Um filme para mães e pais de primeira viagem ou para filhos perdidos?
É interessante ver como um filme consegue abordar tantas questões sem virar uma bola de neve. Dependendo de quem o assistir, poderá ter interpretações diferentes em diversos momentos da história. Roz começa como uma simples robô renegada pelos animais e precisa se provar para eles para não ser morta, ao mesmo tempo em que tem que lidar com um acontecimento terrível que gera culpa. Ela acaba sendo a “mãe” de um filhote de ganso e precisa ensiná-lo a ser um animal enquanto tem um relacionamento peculiar com uma raposa, Fink (personagem esse, diga-se de passagem, dublado por Rodrigo Lombardi, a segunda raposa em seu currículo contando com Zootopia).
A trama principal gira em torno, então, do relacionamento entre Roz e seu bebê ganso, que acaba reproduzindo trejeitos da robô, o que o deixa ainda mais afastado de sua espécie, adicionando o fato que ele é, também, menor do que outros — e em circunstâncias normais seria morto ou deixado para morrer pelos pais. Como “mãe” de primeira viagem, Rozz aprende muitas coisas, não somente como criar um filho, mas também a busca por tentar entender seus sentimentos que não são baseados em Código Binário.
Enquanto isso, olhando para o lado do protagonista ganso, crianças (e até aqueles que se sentem “deslocados”) poderão se identificar com a ave. Pequeno e zoado por outros de sua espécie, ele precisa superar as adversidades para mostrar que consegue viver como eles e até ser melhor do que os seus.
Humor ácido e animal
Foi surpreendente ver que a DreamWorks (e a equipe de dublagem em PT-BR) foi audaciosa o suficiente para criar tantas piadas mórbidas do mundo selvagem em uma animação voltada ao público infantil. Com leveza, mas ao mesmo tempo não subestimando o conhecimento das crianças e a realidade, Robô Selvagem tem uma abordagem interessante sobre a morte e o “ciclo da vida” do animal, especialmente a dinâmica entre a caça e o caçador. Existe uma gambá/saruê (depende de como você chama) que, na realidade, utiliza o mecanismo de “morte instantânea” para evitar ser comida por predadores. Ao se jogar no chão e fingir de morta, ela passa a mesma tática para seus filhos, que não cansam de falar “vamos morrer!” ou então “esse daí não tem chance, vai morrer”.
Mas em meio às piadas de morte, há também lições sobre como cuidar de filhos e, por mais que seja radicalmente diferente um filhote animal de um bebê humano, a realidade é que os dois adoram se machucar ou ficar à beira da morte. Não é incomum ver vídeos de pais fazendo manobras surreais ou se desdobrando para evitar que seu filho bata a cabeça ou caia de alturas consideráveis. Já no mundo animal, bem, se você não for rápido o suficiente, você será devorado por um predador.
Inclusive, o personagem da raposa serve exatamente como interlocutor para isso. Sendo um predador, ela ensina os meios da floresta para Roz, mas sem deixar de falar a verdade sobre como é o mundo real: “se o ganso não for bom o suficiente, eu posso comê-lo,” ela sempre lembra. No entanto, também vemos que todo animal tem seus problemas familiares, até porque sabemos que depois de um certo tempo, pais e filhos se distanciam e nunca mais se veem, basicamente. Aqui, a Fink apoia Roz para ser sua amiga, um conforto em meio a frieza da floresta.
No fim, esses três protagonistas compartilham uma característica: a vontade de pertencimento. Como uma robô, um ganso e uma raposa poderiam coexistir e até viver como uma família nada tradicional (nem na realidade e tampouco na natureza)? Os três, entre idas e vindas, conseguem se encontrar e se apoiar, mesmo que o trio tenha objetivos diferentes.
Chris Sanders, diretor do filme, inclusive, não é estranho a este tema. Mente por trás de filmes como Lilo & Stitch (2002) e Como Treinar o Seu Dragão (2012), “pertencimento” faz parte de seu currículo. No filme da Disney ele juntou duas irmãs de idades diferentes tentando superar o luto quando um alienígena chega e bagunça (ou arruma?) ainda mais suas vidas. Já na DreamWorks trabalhou com um viking e sua amizade improvável com um dragão que feriu. Em ambos os casos, os protagonistas são de espécies drasticamente diferentes, mas acabam se unindo não só por conta da amizade, mas por se entenderem e quererem a companhia um do outro. Uma temática que até hoje ressoa com pessoas de qualquer parte do mundo, em idades diferentes e até origens diferentes, afinal, quem não quer ser amado?
E evolução natural de Wall-E
É difícil não olhar para Robô Selvagem sem traçar paralelos com animações protagonizadas por robôs. Wall-E e O Gigante de Ferro são alguns exemplos mais marcantes do gênero e ambos têm um robô ou uma forma terráquea ao lado. No entanto, Roz é diferente de robôs anteriores; enquanto Wall-E era um ser criado para seguir uma diretriz e, após anos isolado, “saiu” do controle, Roz, por ser uma robô com uma inteligência artificial, já está “programada” para ser “imprevisível” com o intuito de servir aos seus humanos.
Aqui a dinâmica da IA é bem-recebida pelos diretores, mostrando que apesar de imprevisível, Roz acaba se tornando uma aliada dos animais e jura fidelidade a eles no final do longa, mesmo com as adversidades impostas pela empresa que a criou. É interessante ver uma perspectiva animadora deste tema, ainda mais com tantas questões e dilemas que o assunto gera nas áreas de trabalho, estudo e até bem-estar. Inclusive, é bem parecido com a jornada de EVE em Wall-E, ambas seguindo suas diretrizes até certo ponto, mas acabando tomando suas próprias decisões.
A ecologia fica em um segundo plano. Não nos é revelado, diferente de Wall-E, o que aconteceu com a Terra, mas podemos entender, ou ao menos supor, o que aconteceu no planeta de Robô Selvagem. Aqui a DreamWorks explora temas de como proteger a natureza, ao mesmo tempo, usando a tecnologia como aliada, algo simples, mas que seu público infantil conseguirá absorver e, quem sabe, levar para a vida. Se em Wall-E a mensagem é reciclar e ser mais consciente em suas decisões consumistas, em Robô Selvagem a mensagem é mais simplória, transmitindo que o público deve proteger a flora e fauna enquanto o Aquecimento Global chega forte.
É claro que isso são apenas alguns dos vários pensamentos que me vieram à cabeça na sala de cinema, talvez muito por conta dessa expectativa de ver um novo Wall-E, eu queria sentir aquilo que tive anos atrás. Se eu tive? Com certeza! É claro que, igual ao filme da Pixar, a animação da DreamWorks é algo que deverá ser religiosamente assistido todos os anos e irá crescer ainda mais. Talvez esse não seja um sentimento único meu, até porque foi possível ouvir inúmeras fungadas ao longo do filme e em momentos bem especiais da jornada de Roz e seu ganso aprendendo a ser ganso. Como não sou mãe, não posso afirmar precisamente como o filme irá repercutir com quem é, mas imaginando minha mãe no cinema, consigo ter certeza que ela chorará rios de lágrimas. Por outro lado, como filha, muitas vezes me vi no mesmo lugar que o ganso, ainda aprendendo a voar, ainda brigando com a minha mãe de primeira viagem. Até com Fink eu me identifiquei, principalmente pelo fato que a vida adulta chegou e existem caminhos que precisarão ser trilhados sozinhos. Enfim, muitas interpretações e é por isso que este é um filme que, sim, vai gerar não somente risadas e lágrimas, como também uma identificação surreal.
Comparando com as animações mencionadas antes, Robô Selvagem também cai no clichê de uma grande batalha como clímax. Se em Wall-E são robôs e humanos lutando contra AUTO (uma versão de Hall 9000 da Pixar), aqui é Roz e os animais lutando contra a grande corporação que criou a robô e a quer de volta. Segundo amigos que leram o livro, a batalha final na obra original não é só mais violenta, como também há menção de morte de alguns personagens secundários, enquanto sua adaptação cinematográfica é um pouco mais feliz (talvez para balancear todas as piadas mórbidas).
Mesmo assim, a escolha de uma batalha como clímax em um filme que realmente não há ação qualquer pode parecer um pouco deslocada e até uma necessidade de estúdio na vibe “insira uma batalha aqui para ficar legal”. Claro que, olhando para seu público-alvo, as crianças vão devorar essa cena com o tanto de cores e explosões e isso, de forma alguma, é uma crítica, mas é só como o mercado dos filmes anda.
Isso também não incomodou a crítica especializada, que logo deu notas excelentes ao filme e o fez estrear com 100% de aprovação no Rotten Tomatoes. Como qualquer filme, Robô Selvagem viu sua nota cair ao longo dos dias, mas se manteve firme com uns bons 97%, ainda sim um número significativo para assustar o maior competidor para um possível Oscar de Melhor Animação: Divertida Mente 2, com 90% de aprovação no mesmo site. A sequência da Pixar do filme de 2015 foi um dos filmes mais rentáveis da Disney em 2024, mas com certeza a DreamWorks dará trabalho para a empresa do Mickey Mouse. Robô Selvagem pode não prometer uma bilheteria de mesma alçada que seu oponente, mas é evidente que conquistou todos os críticos e vai conquistar pais e filhos.
O Veredicto
Robô Selvagem é uma história comovente e delicada não só quando se trata de assuntos de pais e filhos, como também de questões sobre o meio-ambiente e a inteligência artificial. A nova animação da DreamWorks pega filmes como Wall-E e O Gigante de Ferro e constrói uma história que parece a evolução natural de longas protagonizados por robôs, ainda mais com Rozzum e sua inocência e fome de conhecimento, levando espectadores a se encantarem por ela e sua dinâmica com os animais da floresta.

