Com o lançamento da marca oficial em uma cerimônia cheia de estrelas em Copacabana, a contagem regressiva já começou. Em junho do ano que vem, o Brasil receberá a próxima Copa do Mundo Feminina da FIFA™. Esta será uma edição histórica tanto para a América do Sul, que será sede do evento pela primeira vez, quanto para a própria competição, que passará a ter 32 times classificados.

Se a expectativa é grande para fora de campo, o país também espera por grandes coisas dentro dele. Treinador da Seleção, Arthur Elias conversou com exclusividade com a FIFA sobre o torneio e o status da sua equipe, que vem de título na Copa América Feminina e de uma medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Paris 2024.

FIFA: A Copa do Mundo Feminina da FIFA está chegando ao Brasil e à América Latina pela primeira vez. Qual é a importância desse torneio na região?

Bom, para nós, é um grande orgulho sediar a Copa do Mundo, saber que o futebol sul-americano vem se desenvolvendo, o futebol de mulheres sul-americano. E a Copa do Mundo, sem dúvida, vai impulsionar esse desenvolvimento de uma forma mais acelerada, inspirando as meninas — uma nova geração que a América do Sul vai poder ver de perto o futebol, a qualidade do futebol feminino.

O Brasil tem ótimos estádios, uma grande estrutura. Tenho certeza que vamos realizar a melhor Copa de todos os tempos, porque cada Copa do Mundo Feminina tem mostrado uma evolução muito grande. E tenho certeza que em 27 — não só para o Brasil, mas para o futebol sul-americano — será um ano marcante para esta nova fase do futebol feminino sul-americano.

Por que você acha que nesse momento específico é tão crucial esse torneio vir para o Brasil, para a América Latina?

Primeiro, porque o Brasil merece por tudo o que já fez no futebol feminino, pelas jogadoras que tivemos, muitas delas entre as melhores da história. Também pelo crescente desenvolvimento que tivemos a partir de 2019 no nosso país, com maior valorização do futebol feminino. É uma geração de atletas bastante qualificadas, em que acredito muito. O futebol sul-americano também, com a Colômbia e outros países, se destacando. Muitas dificuldades, mas com jogadoras que lutam e honram muito bem a camisa de cada país que representam. Então, essa decisão da FIFA de sempre dar oportunidade para todos os continentes poderem realizar uma Copa do Mundo é importante para que o futebol feminino fique competitivo em todos os lugares [e] não centralize, especialmente, um continente ou outro. Tenho certeza que o Brasil e o futebol sul-americano estão no momento certo para receberem essa Copa.

E a Copa vai passar por uma pequena transformação no formato, passando de 24 para 32 seleções. Para você, por que é importante dar mais oportunidades para outras seleções participarem desse campeonato?

A partir do momento que o futebol feminino vai se desenvolvendo, é algo natural que a FIFA tome essa decisão de ter mais representantes. Você ter uma seleção jogando uma Copa do Mundo, sem dúvida, acelera o apoio, o desenvolvimento, inspira novas gerações em cada país que está jogando a Copa do Mundo, deixa mais competitivos e acirrados também as eliminatórias, os jogos preparativos. Então, eu vejo que o futebol feminino, com essa mudança, tende a ajudar mais países e, obviamente, torna o campeonato cada vez mais imprevisível, porque hoje temos muitas seleções em condições de serem campeãs do mundo.

Você sente um senso de orgulho ou de responsabilidade sendo técnico de uma seleção de um país-sede de uma Copa do Mundo?

Sim, a responsabilidade é bastante grande. Eu tenho consciência disso. Mas é uma responsabilidade de todos, para a gente desenvolver o futebol feminino e deixar um legado dentro de campo, mas também um legado fora de campo. Eu acho isso muito importante. O meu papel é, obviamente, trabalhar todos os dias para oferecer o melhor a cada atleta, a cada jogadora que vem para representar a Seleção Brasileira e conseguir deixar a nossa seleção cada vez mais consistente, cada vez mais imprevisível para os adversários, mas muito previsível para todas as nossas jogadoras dentro das nossas funções, coordenações que a equipe tem. E também, obviamente, tentar contribuir para esse legado que a gente pode deixar fora do campo.

O nosso país é um país que, infelizmente, tem números alarmantes de violência contra as mulheres. Nosso país tem um histórico de pouco apoio ao futebol de mulheres. Isso recentemente tem melhorado, mas é um histórico duro de oportunidades de mulheres no trabalho em geral, de as portas se abrirem. Então, a gente tem com essa Copa do Mundo a oportunidade de deixar esse legado social, de acelerar essa igualdade de condições, de equiparar as condições de trabalho no futebol. Alertas para essa questão social de violência, enfim. Então, eu estou muito otimista que a gente vá conseguir os nossos objetivos dentro do campo e espero muito que também fora dele.

De certa forma, é a terceira Copa do Mundo que vem para o Brasil, porque a gente teve 1950, 2014 e, agora, 2027. Tem algo com o torcedor, com pessoa envolvida no futebol, tem algum aprendizado que você pode tirar de 1950 e 2014 e trazer para 2027?

Olha, são contextos diferentes. Acho que foram duas eliminações diferentes, em fases diferentes, mas que o Brasil chegou. Então, jogar em casa… o Brasil teve uma eliminação muito traumática em casa em 14, mas chegou à semifinal. E, em 50, chegou à final. Então, eu acho que isso é um recado importante. O fator de jogar no nosso país, com um povo apaixonado que apoia tanto a Seleção, faz com que aumentem as chances de a Seleção chegar nessas fases decisivas.

E, óbvio, chegando nessa fase decisiva, o grupo precisa estar muito pronto, entendendo muito bem o que fazer, como jogar com cada adversário. E eu sou muito confiante no nosso trabalho, acreditando em todas as jogadoras quando a gente forma um grupo, conseguindo explorar o máximo de cada uma, as variações que nós temos, que a gente vem desenvolvendo na Seleção Brasileira. Isso tudo vão ser armas que a gente vai poder usar nesses jogos “mata”. E a gente espera, obviamente, ser mais feliz e trazer um título de Copa do Mundo na nossa casa, entendendo, obviamente, a dificuldade que será pelo nível alto dessa competição.

Você tem treinado uma das maiores jogadoras da história do futebol, que é a Marta. O que isso representa para você? E o que vocês aprendem um com o outro nessa relação?

Olha, para mim é um orgulho, uma oportunidade única para qualquer treinador, de treinar a melhor do mundo de todos os tempos, são poucos os treinadores que têm esse privilégio.

Então, depois de muitos anos trabalhando com o futebol feminino, consegui pegar a Marta ainda em alto nível, mesmo mais para a parte final da sua carreira, mas em alto nível, estando conosco nas Olimpíadas (de Paris 2024), na Copa América, sendo uma atleta importante, como sempre foi para a Seleção Brasileira.  A minha troca com ela é uma troca muito bacana, muito verdadeira. A gente construiu, acima da relação profissional, uma amizade, uma lealdade muito grande naquilo que a gente se propõe a fazer para a Seleção Brasileira e para cada um que — principalmente as jogadoras mais jovens — a Marta tem ajudado muito nesse processo de todas se sentirem bem no nosso ambiente. Como eu sempre coloquei nos grupos [em] que eu trabalho, [de] a gente conseguir ter um olhar, uma cooperação com todos e a Martinha tem sido fantástica nesse apoio. Então, a troca, ela é muito enriquecedora. Eu acredito que até mais para mim do que para ela, mas sei que, para todas as outras, contribuí também para ela dentro da Seleção Brasileira e isso, para mim, é algo marcante, com certeza, na minha trajetória.

Fonte: FIFA

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